quarta-feira, 11 de abril de 2012

Sila Tarot: Lendas do distrito da Guarda






Lenda da Conversão dos Mouros de Trancoso

Omar, o chefe guerreiro mouro, acabava de reconquistar Trancoso numa fúria destruidora que não poupava crianças, mulheres e velhos. Iberusa Leoa, uma cristã de bonitas feições, conseguiu refugiar-se numa gruta e tornou-se ermitã. Passados tempos, quando pensava ter escapado das mãos dos sarracenos foi capturada pelos mouros e levada para o castelo onde ficou refém para ser trocada por um sobrinho do alcaide, feito prisioneiro pelos cristãos. Guardada dia e noite por quatro mouros que se revezavam, Iberusa começou a falar-lhes do seu Deus cristão e da sua fé. Os mouros renitentes a princípio, acabaram convertidos e resolveram fugir com Iberusa. A cristã e os quatro mouros convertidos encontraram o exército de D. Afonso Henriques que vinha libertar Trancoso e foram imediatamente baptizados. Trancoso foi resgatada pelos portugueses e nas suas imediações ficaram a viver os quatro mouros, numa vida solitária e mística dos eremitas. Ficaram para sempre na memória do povo como os mouros convertidos de Trancoso.




O Açor e o Príncipe - Lenda dos Três Milagres

Em tempos que já lá vão, houve um rei espanhol que desesperado por não ter filhos invocou a benção de uma Nossa Senhora dos Milagres, do sítio de Aldeia Rica, em Celorico da Beira, famosa por ter salvado um pastor e a sua vaca de morrerem afogados. O filho nascido deste milagre tornou-se inválido e em vão foram consultados sábios e físicos. A rainha resolveu pedir à Virgem um segundo milagre e juntamente com o rei e o príncipe partiram em romagem à Virgem. Já perto de Aldeia Rica, o pequeno príncipe morreu e o rei desesperado culpou a rainha da iniciativa da viagem e decidiu enterrar o filho ali mesmo. A rainha não o consentiu e, apoiada na sua fé, quis levar o corpo do principezinho até junto da Virgem dos Milagres, depondo-o aos pés da imagem e ali ficando a rezar. O rei descrente resolveu ir caçar e quando lhe disseram que um dos caçadores tinha soltado um dos seus açores reais por achar que as aves tinham sido criadas por Deus para voarem e não para estarem presas, condenou-o à morte, ordenando que começassem por lhe cortar a mão que tinha soltado o açor. Quando o carrasco já tinha levantado o machado, o açor veio pousar na mão que ia ser cortada. O caçador gritou "Milagre!" e ao mesmo tempo chegou a rainha com o seu filho vivo, gritando ela também pelo milagre de Nossa Senhora. O rei libertou o caçador e todos os açores do reino e resolveu construir a igreja de Santa Maria dos Açores, que ainda hoje encerra três lindos painéis que representam "O Aparecimento da Virgem ao Rústico da Vaca", "O Açor Pousado na Mão do Caçador" e "O Filho do Rei, Já Ressuscitado".





Lenda da Serra da Estrela ou do Pastor e da Estrela

Esta é a história de um pastor pobre que vivia numa aldeia triste e tinha por única companhia um cão. Este pastor fitava o horizonte e o seu coração enchia-se de esperança de um dia viajar para além das montanhas que envolviam a sua aldeia. Uma noite de luar em que o pastor olhava o céu estrelado, desceu até ele uma estrela pequenina com um rosto de criança que lhe falou do seu desejo. Estava ali por vontade de Deus, para guiar o pastor para onde este desejasse ir. A partir de então, a estrela nunca mais abandonou o pastor, sorrindo-lhe do céu noite após noite. Até que veio o dia em que o pastor tomou a decisão de partir e chamou a estrela. Os velhos da aldeia abanaram as suas sábias cabeças a tamanha loucura. O pastor partiu e caminhou durante intermináveis anos. O seu cão não aguentou a dura jornada e ficou pelo caminho, marcado por um sinal de pedra. O pastor chorou e continuou em busca do seu destino, envelhecendo junto com a estrela até que um dia chegaram ao seu destino, à serra mais alta, a que ficava mais perto do céu e ali ficaram juntos. O rei da região mandou-lhe emissários com promessas de poder e fortuna em troca da estrela. O pastor respondeu-lhe que a estrela não era dele mas do céu e que nunca a abandonaria. A lenda diz que ainda hoje da serra da Estrela é possível ver uma estrela que brilha mais do que as outras, de saudade e de amor por um pastor.





Lenda das Águas de Almofala

Almofala foi em tempos terra de Mouros como o indica o significado do seu nome em árabe: "hoste ou arraial de Mouros". Nesses tempos longínquos vivia em Almofala uma jovem muito bela chamada Salúquia que a todos fascinava e trazia presos aos seus caprichos, em completa submissão. Até que um dia um novo governador árabe jovem, bonito e altivo veio chefiar aquela região e a todos pediu obediência completa na organização da defesa na luta contra os cristãos. Todos baixaram as cabeças, excepto Salúquia que, habituada a não obedecer e a ser obedecida, lhe perguntou se ela também teria de obedecer. O governador inteirando-se do estranho poder de Salúquia, disse-lhe que se não obedecesse seria castigada. Desafiadora, Salúquia disse que se ele ousasse castigá-la seria amaldiçoado e, perante o ousado desafio, o governador mandou que lhe dessem seis vergastadas. Passou algum tempo, durante o qual as invasões cristãs não davam descanso ao governador que, de repente, começou a padecer de dores estranhas que nem os melhores físicos conseguiam curar. Era a maldição de Salúquia que começava a fazer efeito.

Os cristãos estavam agora já nos arredores de Almofala confrontando-se com os mouros. Salúquia que o castigo tinha amargurado andava pelos campos, vagueando sozinha. Foi então que encontrou um cristão velho e ferido que lhe pediu ajuda. Salúquia recusou porque iria contra as ordens do governador. Quando o cristão lhe perguntou se o governador era cruel, Salúquia surpreendeu-se a si própria ao dizer que era apenas justo. Nesse momento, surpreenderam-na o tom da sua voz e a emoção que sentiu. Foi então que o cristão lhe disse o que o seu Deus lhe tinha dito: apesar de ter amaldiçoado o governador Salúquia amava-o e, pelo seu lado, o governador também a amava e nunca a tinha esquecido. Se Salúquia o ajudasse, o Deus dos cristãos também a ajudaria a reparar o mal que tinha feito com a sua maldição. A pedido do ferido, Salúquia levou-o a uma fonte próxima e verificou com espanto que as suas águas lhe saravam as feridas. Nesse momento, Salúquia e o cristão ouviram os passos de um cavalo que se aproximava: era o governador que quando os viu se apeou do cavalo. As dores fortes que sentia interromperam as suas primeiras recriminações. Salúquia deu-lhe a beber a água da fonte e começou a chorar, dizendo-lhe que era capaz de dar a vida por ele. O governador, curado das suas dores, abraçou-a e disse-lhe que a amava desde o primeiro momento que a tinha visto, mas o orgulho de ambos os tinha afastado. O cristão desapareceu e Salúquia e o governador viveram felizes para sempre. Mais tarde, quando aquelas terras foram conquistadas pelos cristãos, foram ambos baptizados. As águas de Almofala continuam ainda hoje, diz o povo, a manter os seus incríveis poderes curativos.

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