terça-feira, 15 de maio de 2012

Sila Tarot: Filhos de pais separados: Cada idade, uma reacção!

 
Para observar como o seu filho vai lidar com esta questão e como se vai adaptar á nova vida familiar, é preciso entender exactamente em qual das fases de desenvolvimento está a criança.

Quando o casal se decide separar, tem de procurar ter toda a maturidade possível para encaminhar bem a reacção dos filhos à nova fase que se inicia. E, por mais que os pais sejam cuidadosos, a rotina muda. Os bébés ficam agitados, as crianças pequenas voltam a fazer xixi na cama e crianças crescidas passam a dar problemas na escola. Masé necessário seguir para a frente. Separação não é só dramas: se a decisão aconteceu, ajudar os filhos a encarar a nova fase, será importante para todos.

Com a ajuda de especialistas, podemos dizer que há uma forma de preparar a criança conforme a idade dela. Vai depender da fase do desenvolvimento, da dinâmica da família e claro, de como isso será conduzido pelos adultos. Por isso, cada faixa etária pede um tipo de cuidado e uma abordagem. “Acompanhadas de demonstrações de afecto, de amor, cuidado, carinho e respeito, estas atitudes fazem toda a diferença para as crianças”, garante o psicólogo Ricardo Muratori. Dividimos aqui as reacções mais comuns e uma série de orientações baseadas nas idades das crianças. É claro que isso pode variar muito, mas serão dicas preciosas nesse delicado momento familiar. E mais: a separação do casal, não precisa de ser mais uma motivação para se sentirem culpas em relação aos filhos. Mas deve ser encarada com responsabilidade e como uma nova oportunidade para todos.

 
Dos 0 a 2 anos:

É uma fase de adaptação, e o bébé, como uma esponja, absorve tudo ao seu redor. Especialmente nos primeiros meses de vida, a mãe é o seu universo e o que ela sente reflecte-se diretamente na saúde e no estado emocional do filho. Quando a separação acontece neste período, ela tende a ficar mais frágil. A mãe perde o acolhimento e a protecção que costuma receber do marido.

Noites mal dormidas, comportamento irritadiço, mudanças no apetite e sintomas como dores de barriga, mal-estar e febre sem motivo aparente são algumas das respostas dos bébés a estas mudanças. Convém evitar conversas tensas ou mesmo agressivas diante dele (mesmo que ainda não tenha um bom entendimento das palavras, ele pode notar o tom). Se a mãe ainda estiver a amamentar, que as visitas do pai não atrapalhem esse momento. Manter o ambiente de casa tranquilo e respeitar a rotina da criança é essencial.

Com os mais crescidos, a separação pode desencadear desânimo, redução do interesse por brincadeiras e atividades rotineiras.
 

É nesta fase também que o universo do bébé passa a não se restringir mais à mãe e o pai começa a desempenhar um papel diferente para ele. Por isso é importante que a distância não destrua o vínculo entre eles. Aproveitando que as mamadas são menos frequentes, as visitas podem ser um pouco mais prolongadas. Mas o ideal é que não passe por exemplo, um fim-de-semana inteiro longe da mãe. Uma opção seriam encontros durante a semana, mais breves. Nesses momentos, o pai pode inclusive, ter a ajuda da mãe, da irmã ou de alguém com experiência. Porém, é fundamental que ele converse com a mãe da criança para os detalhes da rotina.


Dos 2 a 6 anos:

Diante da separação, a criança pequena costuma fazer perguntas como “Onde está o pai?”,“porque a mãe não está aqui?”, “porque se chatearam?” etc. As suas dúvidas e inseguranças vão no entanto, além do que perguntam. Existe o medo do abandono,da perda do amor do pai ou da mãe e um sentimento de culpa. O psicólogo Ricardo Muratori explica que nesta fase predomina a fantasia: a criança acredita que o que ela pensa acontece.
 
Entre os meninos, por exemplo, é comum desejarem a mãe só para si num momento e, em seguida, identificarem-se mais com o pai. “Quando a separação acontece diante desse conflito afectivo, vem a culpa, a idéia de que foram os seus desejos que desencadearam todo o processo”, afirma. As crianças também podem regredir em relação a aquisições já feitas (voltam a fazer xixi na roupa, não articulam as palavras tão bem quanto faziam, por exemplo). Podem demonstrar raiva, angústia, agressividade, ter choros frequentes e birras mais acentuadas, alterações de sono e de apetite, dores de cabeça, vômitos e febres. No momento de ir para a escola, podem surgir dúvidas do tipo: “Se o meu pai já saiu de casa e deixou-me aqui, será que minha mãe vai voltar para me vir buscar?”.

Para acalentar esta criança e acalmar os seus conflitos emocionais, é preciso conversar muito.Ela tem de perceber o interesse dos seus pais nos seus sentimentos.“Verbalizar colocações como ‘entendo que estejas triste e que esteja a ser difícil’ é positivo, pois ajuda a criança a sentir-se compreendida e amparada”,diz a psicóloga clínica e educacional Celise Govia.
 
 
É ainda importante, a criança ter um canal pelo qual se expresse, ainda que inconscientemente, os seus sentimentos. Podem ser desenhos, jogos, brincadeiras, livros, simulações feitas com os seus brinquedos e bonecos. Que haja, enfim, um espaço em que ela expresse simbolicamente a raiva que sente dos pais, a sensação de abandono ou o que estiver no seu inconsciente. A criança provavelmente não entende tudo o que está a acontecer, mas enquanto empurra carrinhos, dá banho numa boneca ou anda de bicicleta, ela projecta os seus sentimentos e elabora os conflitos que está a viver.
 
Nesta idade há uma série de novidades que envolvem outras decisões importantes quanto à educação. Como a escolha da escola, por exemplo. É importante que seja uma questão de comum acordo, em que ambos participem desde a fase de adaptação até as reuniões com os professores. Mas é no dia-a-dia, a perguntar detalhes, que a criança vai sentir a presença dos pais.
 

Dos 7 aos 10 anos:

A partir dos 7 anos, as crianças conseguem formar conceitos, percebem o que está a acontecer, têm um julgamento mais apropriado da situação. Tendem a fazer muitas perguntas e a manifestar tristeza e descontentamento de maneira clara e directa. O que elas precisam? De colo.

A psicanalista Miriam Chicarelli Furini afirma que, quanto maior a criança, maiores são suas condições psíquicas para lidar com a ruptura. Mesmo assim, há o sofrimento claro em sintomas como distúrbios de sono, alterações no comportamento, irritabilidade, desejo de se isolar, mudanças no apetite.

A escola reflecte isso. Atitudes mais agressivas com amigos e professores, comportamentos mais agitados, isolamento e perda do desempenho escolar, são alguns sinais de que a criança não está bem. Por isso é fundamental que a escola seja informada do que se está a passar em casa.
 

A rotina da criança e o seu círculo social, de qualquer forma, devem ser mantidos.É importante para ela, nesta fase, ir à escola, preservar relacionamentos com amigos, ter a oportunidade de trocar experiências, retirar a mente um pouco do ambiente familiar e sustentar as responsabilidades do dia-a-dia. É fundamental manter os eventos sociais familiares, de ambas as partes. Se o dia da festa calhar num fim-de-semana ou esse dia esteja combinado estar com o outro pai, devem-se negociar encontros substitutos. Tudo pela convivência.

 
No geral, tente sempre conversar. É importante deixar a criança expressar a sua tristeza, sem a pressionar para reagir positivamente. Além de falar, a criança deve ter outras maneiras para expressar os seus sentimentos, extravasar, deixar fluír as suas emoções. Isso pode acontecer por meio da prática de desporto, em actividades como a arte e música e até por meio de brincadeiras. Os pais têm de ficar atentos a isso e, se notarem a criança demasiadamente fechada, uma terapia pode ser uma boa alternativa.
 
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